
Belle Toujours também é 100% em francês. Mas isso não impediu agora que a comissão de selecção do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA), formada pelos "suspeitos do costume" que ninguém conhece fora do circuito mas que há anos nos impingem a sua ideia de cinema português — Acácio de Almeida, Alberto Seixas Santos, Carmen Santos, João Nunes, José Carlos Oliveira, Patrícia Vasconcelos, Paulo Trancoso, Pedro Borges e Raquel Almeida —, o escolhesse como o candidato português ao Oscar da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood para o Melhor Filme Estrangeiro.
Vamos por partes. As regras da Academia apenas exigem que os filmes candidatos na categoria tenham estreado entre Outubro e Setembro no país de origem, que deve também assegurar que o talento criativo desse país exerceu o controlo artístico do filme, e que a língua predominante não seja o inglês. Manoel de Oliveira realiza e escreve o argumento, os franceses Michel Piccoli e Bulle Ogier protagonizam, e entre os actores aparece o inconfundível Ricardo Trêpa. A restante equipa técnica é uma miscelânea em que o português devia ser a língua pátria menos falada. Sendo uma co-produção entre Portugal e França, é natural que o financiamento tenha vindo destes dois países. É um bocado forçado, mas se centrarmos tudo em Oliveira, as regras são mais ou menos cumpridas (em todo o caso, será a Academia a tomar as decisões sobre estas questões de elegibilidade).
Não quero aqui reduzir o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro a uma questão de língua ou da nacionalidade das cabeças artísticas. A história do cinema está cheia de filmes que cruzam línguas e nacionalidades. Para não ir mais longe, Transe, de Teresa Villaverde, coloca Ana Moreira a falar russo e a maior parte da história nem se passa em Portugal.
A minha questão é outra. Entre os filmes que estrearam entre 1 de Outubro e 30 de Setembro estão Transe, Filme da Treta, Viúva Rica Solteira Não Fica, Juventude em Marcha, 20,13, Suicídio Encomendado, dot.com, O Mistério da Estrada de Sintra, Atrás das Nuvens, Belle Toujours e O Capacete Dourado. Virgilio Castelo dizia numa entrevista há quase 20 anos no saudoso S7te que gostava que o cinema português fosse menos... francês. Não interessa agora discutir se a decisão é mais do mesmo e apenas vai reforçar essa imagem. Ou se isto apenas vai ajudar Portugal a manter o recorde de país que mais vezes submeteu filmes aos Oscares sem nunca ter sido nomeado. Mas olhando para a lista de candidatos, ver a Comissão de Selecção dizer que Belle Toujours é o filme que "melhor representa o cinema português" só dá mesmo vontade de rir.
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