Os que visitam este espaço devem estar a pensar como é indigno que o Dias de Criswell tenha as caras da aluna e da professora do liceu Carolina Michaelis do Porto no cimo deste blogue há mais de dois meses. Será que o Mestre não tem amor próprio?
A verdade é que uma penosa conjugação de circunstâncias pessoais e profissionais silenciou Criswell. Para além do aceitável.
Um pedido de desculpas a todos os que sentiram a falta do Dias de Criswell e fizeram chegar a sua estranheza por mail e outros meios. E aos que já colocaram patins a este espaço, retirando-o dos favoritos ou deixando de subscrever o Google Alerts.
Mas vamos recomeçar. Dentro de momentos, vai-se falar precisamente de um par de patins.
domingo, 1 de junho de 2008
sábado, 22 de março de 2008
Dá-me o telemóvel já!
A aula era de Francês, mas parece que o mais interessante foi mesmo dito em Português. Muito se tem comentado este video da aluna histérica do liceu Carolina Michaelis no Porto a atirar-se à professora por causa do telemóvel.Claro que esta história deu origem ao habitual debate sobre o estado a que isto chegou. Mas como se diz por aí à boca cheia, não é caso inédito. Para não ir mais longe, era difícil acreditar que os muitos adolescentes que se comportam como sabemos nas salas de cinema seriam modelos de educação nas salas de aula. Nem podiam ser: têm o exemplo dos pais, que atendem despreocupadamente o telemóvel durante os filmes.
Não tenho dúvidas de que o arrependimento da miúda agora é como a história daquele ladrão que não lamenta tanto o crime, mas o facto de ter sido apanhado. Mas há algo que tem escapado à maioria das análises. Não, não é por que razão 100 mil professores protestam contra as políticas do governo, mas "calam" as humilhações que sofrem às mãos dos seus alunos. Refiro-me, como já devem estar a adivinhar, ao talento do jovem que filmou tudo.
Reparem na forma segura como maneja a "câmara". Como percebe institivamente o poder do drama que se desenrola à sua frente ("É um espectáculo, pá!"), como nunca perde o sentido da acção e se preocupa com o sentido estético ("oh rui, oh rui, sai daí", "Oh gorda, oh faxona, sai daí"), a forma como anuncia o clímax ("a velha vai cair"). E, por fim, o faro comercial de colocar no YouTube.
O cinema português precisa disto. Este minuto e 48 segundos é do mais poderoso que alguma vez se produziu em Portugal. O miúdo vai longe. Dentro de 10 anos, pode estar a fazer o Sorte Nula 2. Ou, sendo do Norte, talvez o Balas & Bolinhos 3.
sexta-feira, 21 de março de 2008
Blade Runner no cinema

Pela pesquisa que fiz, o anúncio da estreia nas salas de cinema portuguesas da última versão de Blade Runner (será) passou despercebido na comunicação social mais importante (foi noticiado pelo Cinema2000 e o Deuxieme).
No entanto, trata-se de uma notícia histórica. E inesperada: o filme já está disponível naquele excelente pack DVD lançado em Portugal há quase cinco meses. Assim, se do ponto de vista comercial a decisão peca por tardia, como cinéfilo mal posso esperar pelo dia 24 de Abril e ver no lugar próprio, uma sala de cinema, este clássico que nunca envelhece. Depois disto, ou Ridley Scott inventa mais alguma, ou ficamos dependentes da boa vontade da Cinemateca ou CineClubes.
sexta-feira, 14 de março de 2008
O legado de Patrick Swayze
Para todos os efeitos, mesmo que não seja verdade que Patrick Swayze tem cinco semanas de vida, esta fotografia recente é desoladora: parece mostrar alguém realmente perto do fim e que, como tal, não está obrigado a privar-se dos ditos "prazeres da vida".Há uns dias atrás, foi divulgado que Swayze tem cancro do pâncreas. O diagnóstico das cinco semanas de vida, cortesia do National Enquirer, foi entretanto desmentido, com os representantes do actor a dizer que os efeitos estão limitados e ele parece estar a responder bem ao tratamento. Mas a notícia principal vinha com outros números estatísticos: este tipo de doença corresponde a 3% do total de cancros conhecidos e é um dos mais devastadores, com uma taxa de sobrevivência baixíssima.
Patrick Swayze nunca será confundido com um grande actor, e qualquer que venha a ser o desfecho deste capítulo da sua vida, nenhum obituário o poderá afirmar. Mas foi "esforçado" e é justo dizer que tem um lugar assegurado na história do Cinema. Haverá sempre Os Marginais, a série Norte e Sul, o inesperado Donnie Darko. O Ghost, vá lá.
Para mim, o que tem mais impacto na carreira de Swayze são os guilty pleasures. O reaccionário Amanhecer Violento do John Milius. Ruptura Explosiva é incontornável. Claro, o Dirty Dancing, onde imortaliza aquela penosa linha Nobody puts Baby in a corner. E principalmente o disparatado Road House, que por cá recebeu um título inspirado: Profissão: Duro.Ele era Jack Dulton, um supervisor de porteiros de discotecas que também era licenciado em Filosofia. É um filme delirante, um clássico chunga que merecia ser celebrizado todos os anos na televisão portuguesa.
domingo, 9 de março de 2008
Vilas Faias
Não vi o suficiente para ter uma opinião definitiva sobre a "nova" Vila Faia.A de 1982 é um marco histórico, foi a primeira telenovela portuguesa, etc. E quase toda a gente a viu uma vez que, naquela altura, não havia mais nada para fazer. E o mais importante: era um retrato do país que éramos, para o bem e para o mal. Ajudou a conhecermo-nos melhor.
Por isso, do primeiro e único episódio que vi da Vila Faia 2008, as perguntas que me assaltaram foram: esta Vila Faia representa a sociedade que somos agora? Mudámos muito em 25 anos? E isto terá acontecido à mesma velocidade com que agora passam os créditos no final da telenovela?
Ou continuamos a ser honrosamente foleiros?
Um indício para a resposta a essa pergunta podia ser a insistência em colocar a apresentadora do magazine Só Visto! Marta Leite de Castro a fazer de actriz. Mas adiante. Claro que os tempos são outros. Tecnicamente, a qualidade de imagem e os cenários melhorarem imenso. Na actualização da história, as mulheres não passam mais o tempo todo em casa a fazer tricot, enquanto os homens sustentam a família. Na evidências, há mais carros de alta cilimbrada e telemóveis. Mobílias e penteados mudaram completamente. As roupas bem mais sensuais já não se escondem. Muito menos os corpos...
A qualidade dos diálogos é pior: tanto é o esforço para parecerem naturais que, por vezes, o efeito é o contrário. E confirmando a perda de impacto nos últimos anos, o jovem betinho rebelde não pratica mais boxe, mas Mixed Martial Arts, vulgo MMA, o que vai permitir mostrar muitas cenas de luta para cativar a malta mais jovem.
Por falar em juventude... ao contrário do que acontecia há uns 10-15 anos atrás, agora os elencos das telenovelas são dominados pelos jovens. Os argumentos reflectem as suas preocupações. Daí que o elenco de Vila Faia 2008 também tenha revuvenescido, mas, com três ou quatro excepções, parece que estamos pior servidos de actores do que em 1982. Nessa altura, estes eram iguais a "nós". Talvez isto seja implicância minha, que não tenho as mesmas qualidades estéticas, mas em 2008, parece que toda a gente tem aspecto de vir da linha de Cascais. É tudo muito "giro".
Nesta área, as minhas grandes desilusões são o João Godunha e a Mariette. Albano Jerónimo, não obstante o aspecto cuidadosamente desleixado, com aquele penteado horrível e a barba por fazer, não deixa de ser um menino bonito a querer passar pelo bruto. E as angústias da Inês Castel-Branco parecem derivar mais de estar a fazer uma dieta contrariada do que das agruras da sua existência.
Claro que, visualmente, eles batem aos pontos o Nicolau Breyner, com o seu bigode tuga e barriga saliente, e da prematuramente envelhecida Margarida Carpinteiro. Mas estes representavam Portugal há 25 anos atrás. Sinto falta da brutalidade natural do camionista tão bem representada pelo Nico. E da prostituta Mariette gasta pela vida.
Agora, por que razão não passei do primeiro episódio, transmitido em horário nobre na RTP? Não, não foi por causa dos próximos irem passar ao final das tardes ao fim-de-semana. Já muito se escreveu sobre esse tema. E a Grande Dama Simone de Oliveira fez uma peixeirada das antigas com muita razão: pelos vistos, a distância que vai de grande aposta dos 50 anos do canal do Estado a um horário de exibição que honra o produto, os actores e a ficção nacional é muito pequena.
A verdade é que perdi a vontade por causa da cena do incêndio. A piroseira de colocarem a Inês Castel-Branco aos gritos no meio do assado, agarrada à foto do filho. E o histerismo do Albano Jerónimo a correr no meio daquilo tudo. E principalmente não consegui evitar o horror ao ver aqueles efeitos especiais horríveis.
Então, de acordo com Vila Faia, estamos melhor ou pior? Estamos mais modernaços. Portugal está mais fresco, figurativa e literalmente. De resto, estão lá a família Marques Vila, produtora do vinho Vila Faia, e uma tasca parecida com a da Ti Ermelinda, então interpretada pela saudosa Luisa Barbosa e agora por Márcia Breia. E as intrigas e invejas do costume. Só não sei se isso é por causa do país ou das telenovelas.
segunda-feira, 3 de março de 2008
Who´s That Girl?
Durante muito tempo foi um mistério para mim e julgo que para muitos dos resistentes portugueses que acompanhavam os Óscares de madrugada: quem era aquela senhora que, invariavelmente, ano após ano, aparecia na audiência dos Óscares?Não era uma estrela ou esposa de uma. Apesar de aparecer em quase todas as cerimónias, nunca a vímos beijar um premiado antes de este subir ao palco. Ela própria também nunca recebeu um prémio. Não parecia ter qualquer ligação à comunidade artística. Então, por que razão as câmaras insistiam em mostrá-la em primeiro plano quase todos os anos, não uma vez, mas três ou quatro?
Conforme fui vendo mais cerimónias em directo, estas foram perdendo interesse, e esqueci um pouco a minha dúvida, mesmo tendo a certeza que, graças à Internet, seria fácil esclarecê-la.
Este ano voltei a ver a minha "amiga". As estrelas vão e vêem, mas ela lá está, imutável, entre os melhores lugares para ver o espectáculo. Revoltado por o realizador só ter mostrado a Jennifer Garner uma vez, e de fugida (sem contar com ela em cima do palco a apresentar um prémio), finalmente fui fazer uma pesquisa.
Descobri que a senhora se chama Judith Reichman, Dr., e é uma famosa ginecologista das celebridades de Hollywood. Está aqui uma biografia, que não diz o mais importante: ela é a esposa de Gil Cates, o semi-eterno produtor da cerimónia dos Óscares. Casados desde 25 de Janeiro de 1987, de acordo com a notícia do New York Times.
Para verem que não é só em Portugal que estas coisas acontecem, parece que os grandes planos da JR já fazem parte do anedotário dos Oscars.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
O melhor dos Óscares
Gostei mais do Jon Stewart há dois anos, mas acho que fez o melhor trabalho possível dadas as circunstâncias. Por causa da greve dos argumentistas, teve que ser tudo organizado em pouco tempo e toda a cerimónia sofreu com isso. Mas é curioso: os críticos americanos gostaram mais dele desta vez, por isso espero que volte a ser anfitrião no futuro.
Em resumo, Marion Cotillard foi uma delícia, Javier Bardem transpirou entusiasmo, Daniel Day-Lewis e Tilda Swinton classe. Os Coen foram... lacónicos. Mas se há momentos que definem uma cerimónia dos Óscares, o deste ano, para o bem e para o mal, foi o da entrega da estatueta para Melhor Canção.
Pouco tempo antes, Colin Farrell introduziu Glen Hansard e Marketa Irglova para cantar Falling Slowly, e logo aí se percebeu pelo ambiente na sala do Kodak Theather que eles eram os favoritos sentimentais numa categoria em que estavam três canções de Uma História de Encantar.
Era a melhor entre as nomeadas e ouvi-la na cerimónia foi um belíssimo momento, mas todos sabemos como a Academia gosta da Disney. No entanto, quando John Travolta repetiu a lista dos nomeados, o tom dos aplausos para a canção de Once não enganou e logo a seguir Hansard e Irglova subiram ao palco debaixo dos mais genuínos aplausos de toda a cerimónia.
O primeiro fez um dos mais sentidos discursos da noite, mas quando Irglova ia falar, nem conseguiu dizer um "Thank You" antes de ser interrompida pela orquestra.
Fiquei lixado. Um momento que estava a ser magnífico estragado pela obsessão com os 45 segundos de discurso. Será que os produtores do espectáculo não percebiam que esta forma de cortar a direito inibe os premiados de tal forma que um dia a Academia fica sem momentos memoráveis das cerimónias para mostrar nas suas tão amadas montagens? A mesma obsessão pela duração da cerimónia que, pelos vistos, fez com que Brad Renfro ficasse de fora do In Memoriam. Ou que não existisse um tributo especial a Michelangelo Antonioni e Ingmar Bergman.
Estava eu a ruminar a minha revolta durante mais um intervalo, quando a cerimónia recomeçou e aconteceu uma coisa que não me recordo de alguma vez ter visto nos Óscares: Jon Stewart trouxe de volta a cantora checa (19 anos, até faz impressão) para fazer o seu discurso. E as suas palavras sobre a luta dos músicos independentes e "a esperança que nos une a todos" derreteram a audiência.
[As notícias referem que foi o produtor Gil Cates a pedir para a trazerem de volta pois sempre existira a intenção de ouvi-la e a interrupção da orquestra fora um acidente: o maestro Bill Conti estava a olhar para baixo e não se apercebeu do que estava a acontecer. Para ser justo, revendo a gravação vê-se que a orquestra começou a tocar e parou uns segundos mais tarde, só que Irglova já se tinha retirado].
A Academia já mandou limpar os vídeos no YouTube, mas para quem agora tiver ficado com vontade de ver o que aconteceu, será uma questão de tempo até voltarem a ficar disponíveis.
Fair play to those who dare to dream and don't give up...
Em resumo, Marion Cotillard foi uma delícia, Javier Bardem transpirou entusiasmo, Daniel Day-Lewis e Tilda Swinton classe. Os Coen foram... lacónicos. Mas se há momentos que definem uma cerimónia dos Óscares, o deste ano, para o bem e para o mal, foi o da entrega da estatueta para Melhor Canção.
Pouco tempo antes, Colin Farrell introduziu Glen Hansard e Marketa Irglova para cantar Falling Slowly, e logo aí se percebeu pelo ambiente na sala do Kodak Theather que eles eram os favoritos sentimentais numa categoria em que estavam três canções de Uma História de Encantar.Era a melhor entre as nomeadas e ouvi-la na cerimónia foi um belíssimo momento, mas todos sabemos como a Academia gosta da Disney. No entanto, quando John Travolta repetiu a lista dos nomeados, o tom dos aplausos para a canção de Once não enganou e logo a seguir Hansard e Irglova subiram ao palco debaixo dos mais genuínos aplausos de toda a cerimónia.
O primeiro fez um dos mais sentidos discursos da noite, mas quando Irglova ia falar, nem conseguiu dizer um "Thank You" antes de ser interrompida pela orquestra.Fiquei lixado. Um momento que estava a ser magnífico estragado pela obsessão com os 45 segundos de discurso. Será que os produtores do espectáculo não percebiam que esta forma de cortar a direito inibe os premiados de tal forma que um dia a Academia fica sem momentos memoráveis das cerimónias para mostrar nas suas tão amadas montagens? A mesma obsessão pela duração da cerimónia que, pelos vistos, fez com que Brad Renfro ficasse de fora do In Memoriam. Ou que não existisse um tributo especial a Michelangelo Antonioni e Ingmar Bergman.
Estava eu a ruminar a minha revolta durante mais um intervalo, quando a cerimónia recomeçou e aconteceu uma coisa que não me recordo de alguma vez ter visto nos Óscares: Jon Stewart trouxe de volta a cantora checa (19 anos, até faz impressão) para fazer o seu discurso. E as suas palavras sobre a luta dos músicos independentes e "a esperança que nos une a todos" derreteram a audiência.[As notícias referem que foi o produtor Gil Cates a pedir para a trazerem de volta pois sempre existira a intenção de ouvi-la e a interrupção da orquestra fora um acidente: o maestro Bill Conti estava a olhar para baixo e não se apercebeu do que estava a acontecer. Para ser justo, revendo a gravação vê-se que a orquestra começou a tocar e parou uns segundos mais tarde, só que Irglova já se tinha retirado].
A Academia já mandou limpar os vídeos no YouTube, mas para quem agora tiver ficado com vontade de ver o que aconteceu, será uma questão de tempo até voltarem a ficar disponíveis.
Fair play to those who dare to dream and don't give up...
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
Confissões a começar
Ok, vai começar.
Vamos a ver: Este País Não É Para Velhos, Coen, Daniel Day-Lewis, Julie Christie, Javier Bardem, Tilda Swinton, Juno e Este País Não é Para Velhos (argumentos), Ratatui.
E agora, pipocas e pantufas...
Vamos a ver: Este País Não É Para Velhos, Coen, Daniel Day-Lewis, Julie Christie, Javier Bardem, Tilda Swinton, Juno e Este País Não é Para Velhos (argumentos), Ratatui.
E agora, pipocas e pantufas...
Confissões a 30 minutos dos Óscares
A cerimónia já está quase a começar. Já estamos a ver as primeiras imagens de Los Angeles e é aproveitar enquanto não começa a publicidade. Será por isso uma boa altura para lançar o cliché: tudo o que envolve gostos é subjectivo e não podemos esperar que os Óscares decretem uma espécie de "justiça cinematográfica". Não há resultados "justos" . No máximo, um prémio é justo apenas quando visto isoladamente, sem pensar nos outros que ficaram para trás. E só podemos desejar é que não seja um daqueles anos em que as escolhas não sejam todas um escândalo... subjectivo.A este propósito, vale a pena lembrar que qualquer adepto dos Óscares passa por três fases na sua relação. Para as visualizarmos melhor, vou usar como exemplo as transmissões em directo da cerimónia em Portugal. A primeira fase é a de amor: tudo é deslumbrante, cerimónia e premiados (mesmo que algumas das nossas escolhas fossem outras). Achamos espectacular que afinal a Academia tenha apreciado o valor do Silêncio dos Inocentes (1992), reconhecido Eastwood e Imperdoável (1993) ou consagrado Spielberg e A Lista de Schindler (1994).
Depois, há um ano em que acontece alguma coisa que não é do nosso agrado. E depois outro. Percebemos, com alguma amargura, que tínhamos uma visão idealista e pura dos Óscares. E descobrimos que existem jogos de bastidores, campanhas de marketing, políticas e tabelas de popularidade. Quem vai a mais talk-shows, festas ou é recomendado pelo Roger Ebert ou a Oprah.
O grande amor desaparece, mas não deixamos de ter respeito pelos Óscares. São os anos em que ganha Forrest Gump em vez de Pulp Fiction, Braveheart e não o nosso adorado O Carteiro de Pablo Neruda (ou, vá lá, o Apollo 13), O Paciente Inglês "rouba" Fargo, Titanic recebe 11 estatuetas e LA Confidential duas ou A Paixão de Shakespeare ultrapassa no fim O Resgate do Soldado Ryan (vá lá, vocês sabem bem que A Barreira Invisível nunca teve hipóteses e A Vida é Bela ganhava o Melhor Filme Estrangeiro).
Depois acontece algo chocante. Para a qual procuramos encontrar uma explicação racional e não conseguimos. De repente, caiu a máscara. Perdemos o respeito pelos Óscares. Encontramos-lhes todos os defeitos. Recordamos todos os "erros" que a Academia fez no passado. Malandros, como se atreveram a premiar o Gente Vulgar em vez do Touro Enraivecido? Como foram tão cegos e preferiram o Danças com Lobos ao Tudo Bons Rapazes?
Nada será como antes. O exemplo mais recente de uma hecatombe deste género foi em 2002, quando Ron Howard foi considerado o melhor realizador por Uma Mente Brilhante quando estavam nomeados o Robert Altman e o David Lynch. Ou Chicago receber o Oscar de Melhor Filme um ano mais tarde.
A partir daí, olhamos para os Óscares com um bocadinho de amor, respeito e por vezes choque. Aplaudimos os prémios que achamos mais "justos" e abanamos a cabeça em relação a outros. E todos os anos procuramos um sinal de que será possível recuperar o amor perdido...
Confissões a 60 minutos dos Óscares
Deixei de ver a cerimónia através da TVI em 2001. Nada contra os comentários do Vítor Moura e do José Vieira Mendes. Com uma ou outra excepção, aprenderam que o som que vem de Los Angeles é sagrado e dispensa ruído de fundo. Mas depois daquele canal ter interrompido a subida da Kim Basinger ao palco para receber o seu prémio por LA Confidential para passar um anúncio com a Claudia Schiffer a sair de um automóvel , jurei que não descansaria enquanto não encontrasse uma alternativa.Há anos atrás, ela surgiu: para quem tiver o privilégio do satélite, o canal alemão Pro7 faz exactamente a mesma transmissão. E ganhei uma espécie de acesso exclusivo à passadeira vermelha. Antes dos Óscares propriamente ditos há o pre-show com a chegada das estrelas, mas por sistema, a TVI transmite os primeiros 5 minutos e quando a ABC vai para intervalo, eles fazem o mesmo. Só que o deles dura dois minutos, enquanto o nosso é como as pilhas do coelho Duracel: dura e dura, e quando damos por isso, o programa está quase no fim.
Confissões a 90 minutos dos Óscares
Que as expressões "irmãos Coen" e "favoritos aos Óscares" alguma vez pudessem ser combinadas na mesma frase mostra como os prémios da Academia não são exactamente aquela coisa tenebrosa que os seus detractores comentam sempre por esta altura. E depois da seca dos últimos anos (convenhamos que a produção andava um pouco por baixo desde os tempos de Fargo e O Grande Lebowski), o melhor é mesmo aproveitar Este País Não É Para Velhos: os astros podem nunca mais voltar a convergir para a tal combinação.Mas, para que fique claro, este ano sou um "milkshake man". Por mim, Haverá Sangue era Melhor Filme, Realização, Actor e Argumento Adaptado. Pelo menos. Mas uma vez que isso é pouco provável, claro que ficarei contente se a alternativa for a consagração pela indústria dos Coen. E se ganharem o desgraçado do Kevin O'Connell, nomeado 20 vezes (este ano é pelo som do Transformers) e o sagrado director de fotografia Roger Deakins. Este ainda está 7 a 0 e está nomeado por dois filmes, o que vai dividir os votos. Além disso, tem uma forte concorrência do Janusz Kaminski pelo Escafandro e a Borboleta e do Robert Elswit pelo filme do Paul Thomas Anderson. Se Este País Não É Para Velhos começar a fazer uma "limpeza", as chances de Deakins aumentam, mas se fosse eu a decidir, o trabalho premiado era o outro...
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
Missão dada é missão cumprida
Capitão Nascimento disse bem alto: "Faça em 6, sr. zero-um!"
Para quem ainda não o viu, Tropa de Elite conta a história do capitão Nascimento (um espantoso Wagner Moura, que amigas me disseram ser uma revelação recente nas telenovelas). Ele pertence ao BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais), um ramo da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro que combate os traficantes de droga nas favelas daquela cidade, e é encarregue de eliminar ameaças antes da visita de João Paulo II à cidade em 1997.Paralelamente, seguimos as histórias de Gouveia e Matias, candidatos a substituir Nascimento, que, prestes a ser pai, se quer retirar. Apesar de ser muito bom naquilo que faz. Que fica para o espectador descobrir.
Para uns, Tropa de Elite glorifica a violência e é fascista, uma vez que parece legitimar o seu uso, bem como o da tortura. Afinal de contas, frases proferidas por Nascimento entraram já na cultura popular e os seus actor foram aplaudidos por muitos espectadores nas salas. Ou seja, quase 40 anos depois do inspector Harry Callahan, nada de novo.
Mas outros, incluindo Mestre Criswell, acham-no muito mais complexo e reconhecem ao filme de José Padilha, para além do valor cinematográfico, uma importância social inestimável. Claro que para os espectadores brasileiros, isso ainda é mais evidente. Eles vivem com aquilo. Por "aquilo", entenda-se a violência que existe no país e em particular no Rio de Janeiro, onde ninguém pára nos semáforos vermelhos à noite e traficantes e polícia lutam entre si recorrendo aos mesmos meios. A vida humana parece valer muito pouco para uns e outros, que aliás têm os mesmos vícios. É o seu realismo que provoca incómodo. E daí as comparações com Cidade de Deus.Agora que Tropa de Elite ganhou o principal prémio no Festival de Cinema de Berlim, parece seguro que a Lusomundo finalmente vai lançar nas nossas salas o maior sucesso dos últimos anos do cinema brasileiro. Com meses de atraso. No país-irmão, o filme chegou mais cedo às salas porque uma cópia de trabalho foi pirateada para DVD e estava a ser um sucesso na Internet. Em Portugal, quando se tornou evidente que estava a acontecer o mesmo (bastava visitar os fóruns), deviam ter feito o mesmo. E como alguns sectores da nossa sociedade ainda pensam que estão a viver no dia 25 de Abril de 1974 (sem dúvida que isso acontece com alguma crítica e muita da comunidade artística), certamente que não vão faltar os que queiram desmascarar o seu "fascismo".
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
Jumper teletransporta talentos para local desconhecido
Como fã das histórias de Steven Gould, fiquei contente quando soube que o Doug Liman ia ser o responsável pela adaptação cinematográfica das aventuras de David Rice, um rapaz aparentemente comum que descobre que tem o extraordinário poder de se teletransportar para onde quiser. O trailer não esfriou as expectativas. Daí que a minha desilusão seja ainda maior. Há uma boa expressão portuguesa: Jumper não é carne nem peixe.Os Jumpers têm uns inimigos mortais chamados Paladinos. Enfrentam-se desde tempos imemoriais. Aparentemente só Deus deve ter um poder destes, mesmo se o vilão não pareça ser dos que frequentam a igreja aos domingos. O filme não perde muito tempo a dar explicações para isso, afinal de contas, só tem 88 minutos, créditos incluídos. Mas este é um exemplo típico de um pormenor apresentado de forma atabalhoada, mesmo amadora. Por exemplo, a certa altura, descobre-se que existe uma forma dos jumpers serem detectados. E depois há um máquina que permite aos paladinos seguirem-nos. Tudo isto parece que é inventado conforme a história avança, o que não é verdade. Mas para quem não conheça os livros, nada disto faz muito sentido. É como se, por osmose, a greve dos argumentistas tivesse já feito de Jumper a sua primeira vítima no grande ecrã.
Jumper é um paradoxo cinematográfico. Demasiado curto para desenvolver personagens, conflitos, demasiado comprido para tanta banalidade. O que dizer mais? Que, tal como sucedeu com A Bússola Dourada, não estamos verdadeiramente perante um filme, mas um teaser, um aperitivo para uma sequela em que se espera que realmente aconteça alguma coisa mais interessante? Que Samuel L. Jackson, no papel do vilão/paladino-mor, com um ridículo penteado platinado, fez mais um filme apenas pelo cheque? Que o dinamismo e estilo do realizador do Swingers ou do Go, para já não falar do primeiro Bourne, está tristemente ausente?
Nem tudo é mau. Os efeitos especiais são competentes, como era de esperar, mas só ajudam até certo ponto. AnnaSophia Robb e Max Thieriot, que interpretam as personagens que depois serão de Rachel Bilson e Hayden Christensen, são bons e cativam o nosso interesse. E os primeiros 15-20 minutos, em que o improvável herói descobre os seus poderes e depois os explora de maneiras pouco legítimas, são uma boa introdução para o que se esperava que acontecesse a seguir. Jamie Bell, no papel de um outro Jumper, dá ao filme a vitalidade que este tão desesperadamente necessita. Ele e Christensen deviam ter trocado de personagens.
O que me leva a outra questão. Nunca tive grandes expectativas para a rapariga do The OC. Christensen é outra conversa. Acho que já deu provas de ter talento. Foi muito bom no Shattered Glass: Verdade ou Mentira. Aguentou-se muito bem no Uma Casa, uma Vida ao lado do Kevin Kline. Ao contrário de muitos, não tive problema nenhum com o seu Anakin Skywalker, principalmente na Vingança dos Sith. Mas senti-me traído com Jumper. Ele é realmente aborrecido, inerte. Como é que agora o vou defender junto dos meus amigos, que acham que ele é o novo Paul Walker?
domingo, 10 de fevereiro de 2008
Haverá Sangue... e os outros?

Finalmente vi o Haverá Sangue do Paul Thomas Anderson. Comandado por um fascinantemente contraditório Daniel Day Lewis, trata-se de uma experiência hipnótica do início ao fim. Aliás, este é o tipo de filme em que não convém mesmo chegar um segundo atrasado. Uma saga infernal sobre o capitalismo e a fé... e a falta dela (não apenas religiosa). O poder, a ganância, a corrupção, . E sobre a solidão, a desumanização levada ao extremo da crueldade. Um Gangs de Nova Iorque no outro lado do país. O melhor filme de PTA? Mesmo à frente de Magnolia? Provavelmente.
Tudo isto recordou-me como fiquei frio ao conhecer as nomeações aos Oscares. Nunca como este ano as pessoas que gostam de cinema foram roubadas da oportunidade de "brincar aos Oscares". De discutir as nomeações, os seus méritos e omissões. Até então, dos cinco nomeados, apenas estreara o Expiação, um filme simpático que começa de forma portentosa, mas depois é sempre a cair na banalidade narrativa. Haverá Sangue estreia na próxima quinta-feira, Michael Clayton e Juno no dia 21. Os Oscares são a 24 e, incrivelmente, aquele que tudo indica ser o vencedor, Este País Não É Para Velhos, dos Coen, chega depois, a 28.
Não sei se estas datas foram decididas em Portugal ou impostas pelas distribuidoras internacionais. Mas olho para estes filmes agora encavalitados uns em cima dos outros (Michael Clayton chegou a estar marcado para Outubro e entretanto já saiu em DVD nos Estados Unidos) e pergunto: o que aconteceu às pessoas que tratam do marketing dos filmes? Estarão de tal forma formatadas nos filmes-acontecimento, nos blockbusters que basicamente se vendem por si, que não conseguem promover um filme que pareça mais "artístico" sem depender exclusivamente dos Oscares?
Terá desaparecido o talento, a vontade para pensar uma campanha de divulgação baseada, vamos lá, nos méritos artísticos de um filme? Será que os profissionais olham, por exemplo, para o filme dos irmãos Coen, e tremem de medo quando constatam com horror que ele é, essencialmente, um western? Depois venham queixar-se da pirataria...
sábado, 2 de fevereiro de 2008
Matt Damon é o gajo mais porreiro do mundo
Matt Damon tem sido ao longo dos anos alvo de uma piada do seu amigo Jimmy Kimmel, um apresentador do Late Night americano. Ele termina o seu programa dizendo apologies to Matt Damon, we ran out of time, ou seja, já não há tempo para o receber como último convidado. No ano passado, até enviou o seu segurança do parque de estacionamento para a ante-estreia do Ocean´s 13 fazer o mesmo....
Agora, a propósito do quinto aniversário do Jimmy Kimmel Live na estação ABC, a sua namorada, a explosiva Sarah Silverman (quem não a conhece, veja o que ela faz a Paris Hilton e Britney Spears), decidiu oferecer um vídeo musical que revela um terrível segredo que se está a tornar um grande sucesso...
Agora, a propósito do quinto aniversário do Jimmy Kimmel Live na estação ABC, a sua namorada, a explosiva Sarah Silverman (quem não a conhece, veja o que ela faz a Paris Hilton e Britney Spears), decidiu oferecer um vídeo musical que revela um terrível segredo que se está a tornar um grande sucesso...
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
As empadas de "Sweeney Todd"

Há um motivo suplementar e que nada tem a ver com cinema para ficarmos todos contentes por ter estreado nas salas portuguesas o Sweeney Todd: O Terrível Barbeiro de Fleet Street. Ao observar as deficientes condições de higiene em que Mrs. Lovett (Helena Bonham Carter) fabrica as suas primeiras empadas de carne ("as piores de Londres", como ela canta a certa altura), e a origem da carne que "Mr. T" (Johnny Depp) lhe fornece posteriormente e que tornam o negócio um sucesso, fiquei com medo que o filme fosse proibido pela ASAE.
sábado, 26 de janeiro de 2008
A RTP vai passar o filme dos cowboys gays
Dentro de momentos a RTP-1 vai começar a passar O Segredo de Brokeback Mountain. As tragédias têm destas coisas e por maior que seja a tristeza, não há que criticar o canal por capitalizar com o natural interesse das pessoas pelo Heath Ledger depois da sua morte. Basta ir ver a lista dos filmes mais pedidos nos últimos dias na Amazon para ter uma ideia. É uma questão de oportunidade e pena tenho eu que a SIC ou a TVI não tenham aproveitado para voltar a transmitir o 10 Coisas Que Odeio em Ti, na minha humilde opinião uma das mais inspiradas comédias teen vindas de Hollywood, ou o Coração de Cavaleiro, a delirante aventura medieval ao som dos Queen.Mas o spot publicitário a anunciar a exibição do filme realizado por Ang Lee é incrível: com excepção da cena em que Ennis Del Mar está agarrado à camisa de Jack Twist, só mostra imagens de Heath Ledger e Jake Gyllenhaal aos beijos ou a trocarem carícias. Literalmente um bocado de todos esses momentos. Mais nada.
Quem conhece Brokeback Mountain sabe que estas cenas são breves e a relação entre as personagens é precisamente a de um amor nunca concretizado. A de uma hipótese de felicidade que se deixa fugir. Mas claro que quem nunca o tenha visto, olha para o anúncio da RTO e fica a pensar: o filme deve ser só isto. E foge a sete pés. Até porque, no canal ao lado, está a dar o excelente De Tanto Bater o Meu Coração Parou.
Esta manipulação não tem nada de inocente. E é estranho que numa estação com tantos profissionais inteligentes, alguém não tenha achado esta promoção esquisita. Espero que algumas pessoas, mesmo assim, resistam à sugestão implícita das imagens e dêem uma oportunidade ao filme. Mas também vos digo: ainda bem que os responsáveis da Focus Features não tinham um tipo destes a tratar do trailer do Brokeback Mountain há dois anos! Seria um desastre. Lembram-se como era?...
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
I´m Not There
Era suposto fazer um comentário sobre as nomeações dos Oscares. Em como fiquei eufórico com as nomeações que Juno conseguiu. E por se terem lembrado do Tommy Lee Jones e da Laura Linney.Mas estou triste. É verdade que se trata da morte de um estranho. Mas estou arrasado. Será que voltámos aos seventies? Deverei juntar os suspeitos do costume e avaliar as probabilidades de morrerem nos próximos tempos? Como é que é possível voltar a ler tão depressa mais um obituário de alguém cuja carreira vimos crescer e estava cheia de promessa?
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
The George Clooney Show
As nomeações para os Oscars que se vão conhecer dentro de algumas horas vão tornar alguns media insuportáveis nas próximas semanas. A mesa-redonda dos Oscars promovida pela revista Newsweek acaba por ser dos momentos mais interessantes, quanto mais não seja porque é uma oportunidade para ouvir o sempre esquivo Daniel Day-Lewis. Este ano, por causa das pausas (e alguma bajulação), o encontro ficava melhor em texto do que em vídeo (apesar de James McAvoy safar muitos momentos), pois realmente é um estranho grupo de convidados: a Lewis e McAVoy juntaram-se George Clooney, Angelina Jolie, Marion Cotillard e a deliciosa Ellen Page.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2008
Jornalismo de prevenção
Em Portugal, não existe a tradição, mas lá fora há jornalistas que só fazem obituários. Aliás, o Jude Law era um deles no Perto Demais. Quando é bem feito, é uma área nobre do jornalismo. Mas a arte de prever a imprevisibilidade da morte tem fases como esta em que uma pessoa nem sabe bem o que pensar.
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